sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O Homem de Piltdown

POR EDUARDO REAL

Em 1912, o arqueólogo e geólogo amador Charles Dawson alegou a descoberta de fósseis humanos, na pedreira de Piltdown, Sussex, Inglaterra. O achado consistia em uma mandíbula e a calota craniana, próximos um do outro. A reconstituição mostrou um hominídeo com caixa craniana de tamanho semelhante ao nosso e uma mandíbula robusta com dentes semelhante a de símios. Com a colaboração de Arthur Woodward e Pierre Teilhard, a nova espécie foi anunciada no mesmo ano e recebeu o nome científico de Eoanthropus dawsoni.

O hominídeo descoberto por Dawson, não era o primeiro. Em 1856 - três anos antes da publicação de A Origem das Espécies - encontraram o homem de neandertal. O hominídeo mais próximo de nós. E em 1891, Eugéne Dubois, encontrou o Homo Erectus. O primeiro ancestral direto da linhagem humana.

E então veio o achado de 1912, que foi apresentado como um ancestral humano. Os fósseis até então encontrados possuíam cérebro bem evoluído e mandíbula e dentes diminuídos. Já o exemplar de Dawson, possuia cérebro grande e uma mandíbula primitiva.

Por esse motivo, levantaram a hipótese que o homem de Piltdown era um ancestral mais antigo e suas características pareciam comprovar a hipótese - muito popular entre os cientistas britânicos - de que o cérebro teria evoluído antes da dieta onívora. Calcularam que ele viveu por volta de 500.000 anos atras. O que não veio desacompanhado de certo ceticismo.

Já em 1915, o paleontólogo francês Marcellin Boule concluiu que a mandíbula era de um macaco. Da mesma forma que o zoólogo americano Gerrit Smith Miller. E em 1923, Franz Weidenreich analisou os moldes e concluiu que era o crânio de um humano moderno e uma mandíbula de orangotango.

Porém, no mesmo ano, Dawson anunciou ter descoberto um segundo crânio; também em Piltdown, mas em lugar não revelado. O segundo espécime calou boa parte das críticas e afastou a suspeita de engano. Dawson morreria em 1916, vítima de septicemia. E nenhum outro exemplar seria achado. Em 1920, Teilhard publicou importante artigo sobre o tema.

Mas o castelo de cartas começou a cair lentamente. Em 1920, paleontólogos descobriram os ossos do Australopithecus afarensis. Em 1929, foi a vez do homem de Pequim e em 1934 a do Homo rudolphensis. Assim como outros australopitecus e membros do gênero Homo e foi possível montar a árvore genealógica humana. Ficando claro que o cérebro e a dieta onívora evoluíram conjuntamente. O homem de Piltdown não se encaixava na linhagem. Sua anatomia era totalmente anacrônica. O fóssil perdeu importância e na década de 40 nem era mais listado na descendência do homem.

E em 1953, Page Kenneth Oakley, Sir Wilfrid Edward Le Gross Clark e Joseph Weiner constataram a fraude. Tratava-se de um crânio humano, uma mandíbula de um orangotango e os dentes de um chimpanzé. A datação com isótopos de fluor, revelou que o cranio humano datava da idade média e os ossos de macaco mais recentes. Os ossos foram banhados em uma solução de óxido férrico e ácido crômico para ficarem com o aspecto envelhecido. E os dentes tiveram seus tamanhos reduzidos com o uso de um abrasivo.

O principal suspeito de ser o autor da fraude é Dawson, que anunciou a descoberta dos dois exemplares. Um levantamento de seu acervo pessoal identificou 38 itens que são fraudes evidentes. Sua motivações seriam o ganho de notoriedade e uma bolsa na Real Society. Mas a identidade do falsário até hoje é um mistério e mesmo que fosse o autor existem suspeitas de que ele teria colaboradores. Como Pierre Teilhard, Arthur Woodward e Sir Arthur Keith, também apontado como cumplices ou autores.

Criacionistas frequentemente citam o homem de Piltdown como uma armação feita pelos cientistas para provar que a teoria de Darwin está certa. Ou ainda para levantar suspeitas sobre os demais hominídeos fósseis. Porém, analisando a cronologia dos fatos e o contexto é possível entender os motivos da farsa ter durado mais de quarenta anos.

Quando a espécie foi anunciada, poucos hominídeos haviam sido descobertos e o conhecimento sobre sua evolução era escasso. E as caracteristicas do achado pareciam confirmar a teoria vigente de que a alimentação atual evoluiu depois do cérebro. Também a técnica de datação pelo flúor só foi desenvolvida anos depois. O nacionalismo pode ter influenciado a aceitação do fóssil pelos cientistas britânicos. Já haviam encontrado hominídeos fósseis na Alemanha e na França, mas não na Inglaterra. Isso explicaria o fato de os primeiros críticos serem de outras nações.

É muito mais provável que a criação e longa duração do embuste, tenha sido motivada mais por ambições pessoais e pela falta de conhecimento da época. Hoje em dia, seria muito difícil que algo assim durasse tanto tempo, com os recursos tecnológicos disponíveis para a investigação atualmente. A ciência com sua continua revisão garante que as fraudes sejam descobertas e se chegue mais próximo da realidade.

2 comentários:

Pablo Moreno disse...

Ótimo texto Eduardo.
Infelizmente O Homem de Piltdown continua sendo usado como desculpa para desacreditar a Teoria da Evolução.

Como se em 1912 a tecnologia fosse a mesma da atualidade.

Eduardo Real disse...

Obrigado Pablo!
É sempre assim, a essencia do criacionismo é a desinformação. Falsas alegações e distorções vivem sendo propagadas por eles, como é o caso da "versão criacionista" da história do homem de Piltdown

Abraço